Drogas, qual a saída para este mal?

E aí pessoal, tudo bem com vocês? Preparados para um assunto polemico?

Nos últimos meses venho estudando este problema que destrói a vida de milhares e milhares de pessoas ao redor do mundo, tenho certeza que este meu interesse nasceu decorrente de estar quase perdendo para as drogas um dos meus grandes amigos de infância e que nos últimos anos vem praticando um suicídio gradativo.

Estudei com este meu parceiro desde meus primeiros anos na escola e a nossa vida sempre teve muito altos e baixos mas depois de seguidos lances de crueldade que a vida impôs a ele, perdendo tragicamente boa parte da sua familia, parece que o único lugar em que ele se encontrou foi usando diversos tipos de drogas e hoje se encontra no fundo do poço. Eu e um grupo de bons amigos estamos tentando de tudo para fazer com ele se liberte deste mal o que na verdade, mesmo eu sendo um dos caras mais otimistas que eu conheço, começo a quase duvidar que estes problemas tenham uma saída, entretanto, vamos continuar tentando de tudo e arcando com despesas de clínicas, oferecendo emprego, ajuda de qualquer tipo que prometa uma solução por mais remota que seja.

Mas meu artigo não vem com a intenção de falar sobre a tragédia do viciado, nem ficar lamentando casos que na verdade nossa sociedade já está cansada de ver todos os dias em cada esquina. Assim como não quero nem entrar na questão do uso em si, defender, condenar, faz mal, não faz mal, não é nada disto.

Queria escrever um artigo para debater com vocês quais seriam as soluções para esta desgraça no médio e longo prazo.

No mês passado assisti um documentário que condensou boa parte das soluções que eu vinha estudando a um bom tempo, o nome é “How to make money selling drugs”, obviamente o nome é uma grande ironia em relação a proposta que o trabalho propõe que poderia solucionar esta tragédia.

O documentário mostra como funciona toda a cadeia que ampara as drogas, a fabricação, comercialização e distribuição delas pelos EUA, e em cada ponto ele mostra quanto você pode lucrar se virar um especialista em cada etapa da cadeia deste mercado negro. Por exemplo, se você quiser faturar U$1.000,00 por mês você pode começar a convidar novos usuários a experimentar e distribuir pequenos produtos em festinhas ou baladas. No segundo nível da cadeia você será um distribuidor pequeno por exemplo e aí seu lucro seria U$1.000,00 por dia ( estou usando exemplos de números e postos, apenas para ilustrar, não me lembro exatamente cada um) , e com isso o filme vai construindo a cadeia inteira e mostrando que se você chegar ao topo dela, sendo um produtor, dono de cartel no México você irá ser o dono do mundo, faturar milhões em um só dia e comandar o sistema inteiro.

Para cada andar desta escada, para cada função, o filme mostra como deveria ser o seu trabalho 100% perfeito, como você iria melhorar cada vez mais para alcançar o degrau acima na cadeia hierárquica e quais são os malefícios daquela posição. Quem você deve subornar, como proteger seu território, como vender com menos risco, como minimizar os riscos de ser pego pela polícia e etc.

O filme em tom de ironia até perto do seu final levanta a seguinte questão, estamos vencendo esta guerra ano após ano ou estamos perdendo? A droga deve ser regulamentada e liberada ou deve continuar sendo combatida desta forma? E se estamos no caminho errado pq não mudamos de rota, o que nos trava?

Para analisar meus pensamentos em relação as possíveis soluções propostas no filme, alguns dados são importantíssimos na minha opinião.

Você sabia que o cigarro teve o seu consumo reduzido em 49% após o lançamento das campanhas publicitárias educando a população sobre os malefícios que ele traz e devido as proibições de lei em lugares públicos?
Esta pergunta é muito importante para entendermos os possíveis caminhos de solução no futuro. Fazer a pessoa entender que aquilo faz mal é o que o documentário demonstra como a única solução efetiva.

Uma pesquisa na Europa mostra que mais de 85% dos jovens que não usam drogas, não as usam pq faz mal e não pq elas sejam de difícil acesso!
Este é outro dado absurdamente importante!

Ou seja, ninguém deixa de usar drogas pq não tem acesso, pq tem medo de ir até o traficante comprar, as pessoas não usam drogas ou não ingressam neste universo mortal pq tem medo de viciar, tem medo do preconceito social que ela pode gerar, tem medo de magoar seus parentes e amigos, por diversas razões que não o acesso a elas.
Claro que estou falando das pessoas que NÃO usam drogas, entretanto, quando vamos para o outro lado da moeda, as pesquisas apontam que dentre as pessoas que USAM drogas, nenhuma delas cita a preocupação pelo que elas fazem devido a forma com que conseguem compra-las, e sim, também pelo mal que ela gera, defendem o uso moderado, defendem que não são viciadas, defendem os benefícios da “viagem” e do “bem estar” que elas supostamente podem causar mas em nenhum momento das pesquisas citam a dificuldade em adquiri-las.

Aos poucos vamos entendendo que a solução é quase como o poker, um jogo de lógica. Mas antes de eu expor os meus pensamentos vamos a mais dados.

Se educar e fazer a população entender que droga faz mal é o caminho, e em contrapartida a isto, esta um caminho de guerra ao tráfico e etc, vamos tentar entender os custos destes dois caminhos para a sociedade;

Os Estados Unidos por exemplo investem 25 bilhões de dólares todos os anos no combate a drogas, não em campanhas de conscientização e sim na guerra mesmo, armas, policiais, estratégias de batalha, operações de fronteira e etc. Guarda este número!

Os Estados Unidos por outro lado investem 200 milhões de dólares por ano em campanha anti drogas, em publicidade de todos os tipos para conscientizar a população mostrando os malefícios do uso das mesmas.

Pensa bem, são 25 bilhões de dólares contra 200 milhões de dólares!
Se você combinar isto com os dados do cigarro, que durante muito tempo foi proibido, teve uma alta de consumo absurda e depois regulamentado sem campanhas opostas e continuou explodindo e em seguida em uma linha de tempo de décadas vem sendo combatido com força na conscientização mesmo que liberado, teve uma queda impressionante em todos os seus números de usuários, em todas as idades e classes sociais, então, começamos a entender uma parcela deste problema de lógica. De 1980 a 2010 o consumo de cigarro caiu 65% no Brasil, sabendo que na década de 70/80 fumar era “cool” , era bacana, as tv’s defendiam isto, os comerciais mostravam o status, se você fumasse você pegava mais mulher, as mulheres pareciam mais elegantes, inteligentes e estas baboseiras todas, de alguns anos pra cá, fumar significa fetos deformados, familia segurando a mão do pai no leito de morte, e olha o resultado no consumo! De 2008 a 2012 o uso da maconha no Brasil cresceu 40% entre os jovens! Seu filho chegar aos 18 anos sem usar drogas no nosso país é um flip, AK x QQ!

Pensei muito se citaria isto, pq na verdade me da vergonha, mas vamos lá! Sabe como as coisas funcionam no Brasil em relação ao combate as drogas?

O nosso amado país tinha um plano de investir anualmente 4 bilhões de reais até o final de 2014, plano este anunciado em 2012, até agora foi investido 800 milhões de reais no combate geral as drogas, focado em crack e cocaína.
O plano original anunciava que destes 4 bi seriam 370 milhões de reais aproximadamente o investimento em campanhas de conscientização, políticas integradas, tratamentos aos dependentes e ações que não o combate ostensivo, sabe quanto foi investido até hoje? Chuta! 12 milhões!!! Vai pra PQP!

O meu “VAI PQP”, não sei se você percebeu, não é apenas pelo valor ridículo que se investiu em um assunto tão importante para a nossa sociedade, e sim, que investiram 788 milhões em armas, políticas de combate ostensivo, guerras nas fronteiras e apenas 12 milhões no que realmente é efetivo dentro desta batalha.

Em nenhum momento deste meu artigo estou defendendo o uso de drogas e sim condenando a estratégia por trás do combate as mesmas. Nunca usei drogas na minha vida, nunca fumei nem sequer um cigarro comum e sim, me orgulho demais isto. O que não me fez usar não foi ninguém me falar que era difícil comprar, pois os traficantes estavam todos os dias do nosso lado no Tatuapé, era só querer que o baseado ou a farinha estaria na minha mão. Nem mesmo deixei de experimentar pq tinha medo da polícia, de ser preso, eram tantas pessoas usando drogas no meu bairro que não enche os dedos de uma mão as vezes que algum deles teve problemas com polícia apenas pelo uso.
O que me fez nunca usar uma merda destas foi a minha mãe, o quanto eu sabia que iria magoa-la, uma mulher que sofreu demais para criar eu e meu irmão teria sua vida devastada só em saber que eu segurei a porra da maconha. É obvio que tive vontade algumas vezes, 90% dos meus amigos usavam, e vou te falar mais, não parecia nada mal no curto prazo mas aquela sensação de poder estragar a vida da pessoa que eu mais amava sempre me fez bolhar a droga, todas as vezes que ela colava em mim eu me afastava. Isto pq na minha época não havia nem um comercial falando do mal que ela causava, nenhum outdoor mostrando fetos defeituosos e coisas do tipo, apenas a nossa própria consciência já fazia este trabalho.

O mundo está em constante evolução e o que retrata isto é a forma inteligente com que resolvemos os problemas da nossa sociedade. Dividir meus pensamentos com vocês passa por compartilhar a minha indignação de como a classe política faz vista grossa a soluções inteligentes para este enorme problema.

Entretanto, neste ponto vem a minha maior dúvida!

Me parece muito claro depois destes meus meses de estudo quais são as tendências de soluções inteligentes, e tenho certeza também que no Governo, no comando em geral, existam pessoas muito mais inteligentes do que eu, então, por que não buscam estas soluções?

Bom! Combater a droga, combater o tráfico na minha opinião é muito bom para o próprio traficante, para o próprio produtor colombiano, mexicano e etc!
Blitz da polícia no distribuidor local apreende 200 kilos de cocaína! Ok, e aí? Diminuiu o consumo da cocaína? Quem lucrou? Exatamente o andar de cima da hierarquia que vai repor este estoque! E assim por diante. Ou você pensa que o cara que está assistindo televisão e vê a prisão de três maloqueiros que iriam distribuir 200 kilos de farinha vai fazer com os nossos jovens pensem “Ahhh então eu não vou usar mais!”?

Regulamentar esta atividade ou buscar um caminho de formatação deste mercado, uso medicinal como na California com a maconha, uso restrito por receita, ou sei lá quais seriam os caminhos  traz para o jogo laboratórios gigantescos uma indústria poderosíssima mas fere um poder ainda mais forte, o dos cartéis. Por isso não duvido nada que tentáculos destas instituições de infinito poder estejam presos as forças que fazem com que soluções inteligentes não aconteçam.

Enquanto isso, perdemos todos os dias vidas e vidas de policiais que poderiam estar defendendo os interesses da população nas ruas contra assaltos, sequestros, pedófilos, estupradores, e vagabundos de outras naturezas, não descartando a natureza vagabunda do próprio traficante mas este iria morrer por si só, até mesmo se juntando aos anteriores mas deste mercado ele não viveria mais.

Quando penso nas minhas filhas, através de todas as pesquisas, sei que não é a droga ser liberada ou não que vai fazer com que elas não as usem, e sim a consciência delas, e sei também que o Estado pode influenciar esta consiciência, agora gastando 12 milhões em um país de 200 milhões de pessoas aí sei também que não posso contar com a ajuda do Estado, como sempre!

Isto sem falar no trabalho da polícia!

Você já pensou na lógica do trabalho da delegacia de narcóticos? Os caras tem a incrível missão de combater um crime que as duas pontas querem cometer, o traficante quer vender e o usuário quer usar, não tem vítima a parada! As vítimas nascem da estrutura deste mercado ou do resultado do uso. Ambos querem se esconder da polícia, ninguém da queixa! Caraca, deve ser treta! E mesmo assim eles fazem um puta trabalho estratégico, cirúrgico para uma briga que a cada dia só se mostra mais perdida não por responsabilidade dos policiais e sim da inteligência política da questão.

Se as estatísticas se comprovarem em breve meu telefone vai tocar com uma notícia sobre este meu amigo que citei no começo do artigo, uma notícia ruim é obvio, mas talvez se usássemos a inteligência utilizada para o caso do cigarro, que por si só mata muito mais do que a droga, e vem sofrendo uma redução absurda, para o casos do crack, da cocaína e etc, talvez fosse ele mesmo, o meu amigo no telefone dizendo que venceu esta luta!

Valeu galera, desculpa o texto tão grande e sei que é um assunto bem polemico, eu também fico estudando e tentando entender todas as versões desta polemica pois assim que podemos conviver com tudo de forma inteligente mas este meu esforço dos últimos meses fizeram com que eu tivesse esta vontade de compartilhar estes pensamentos com vocês, até mesmo para ler os comentários, ver o que a nossa comunidade pensa em relação a isto. O conceito de liberdade, o conceito de inteligência social, o papel do Estado, tudo isto envolvido neste tipo de discussão e não me sinto preparado para propor saídas absolutas mas me sinto confortável para discuti-las. Quem sabe este não é um começo para uma carreira política no meu futuro para ver se levamos para frente o exercício da discussão e soluções pensadas sem interesses obscuros.

Não estou dizendo que sou a favor da liberação das drogas, mas sou a favor de mudarmos o caminho que estamos trilhando, temos que mudar a direção imediatamente para algo mais inteligente. Não quero tirar o meu da reta falando que não sou a favor da liberação, é que liberação é uma palavra muito difícil de definir, isto tem que ser responsabilidade de especialistas, sociólogos, etc. Não me julgo apto a definir um modelo adequado mas me julgo inteligente para ver que estamos no caminho errado.
Portugal adotou a descriminalização do consumo de drogas e é considerado um caso de sucesso pelo mundo inteiro, seu consumo diminuiu nos últimos 10 anos, principalmente na faixa etária de 15 a 19 anos. As intenções de internação voluntária de viciadas aumentou em 65% e em nenhum momento deste processo de descriminalização o consumo explodiu.

Grande abraço a todos,

André Akkari

63 comentários sobre “Drogas, qual a saída para este mal?

  1. A solução contras drogas não é descriminalizar, mas refutar, diminuir seus espaços como foi feito com o cigarro. Hoje um dos grandes pontos do vícios são os bares de periferia que deveria ser fechados. Se formos olhar pelas leis inglórias contra assaltos, estupros, assassinatos, etc. então se as leis não surtiram efeitos então deveríamos liberar os assaltos , os estupros já que a lei não resolveu ? Precisamos tomar cuidado a apologia às drogas rende lucros para muitos, apologia a descriminalização rende muito mais ainda. Traficantes estariam dispostos a pagar milhões para pessoas influentes fazer tais apologias ao invés de falar de proibição e restrição dos seus espaços. As drogas, o fumo estão interligadas ao alcoolismo, aos OPEN BARES de calçadas, às aglomerações nas vias de trânsito .

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